Resenha: Árvore e Folha, de Tolkien

Existe alguém melhor para falar sobre contos de fadas do que o mestre J. R. R. Tolkien? Pois bem, neste pequeno livro, chamado Árvore e Folha, ele discorre sobre a natureza, origem e funções dos contos de fadas, em um ensaio bem complexo, apesar de curto. Além disso, essa edição da Martins Fontes traz o conto "Folha, de Migalha", que segue o exato modelo proposto por Tolkien no ensaio.

Que capa maravilhosa, gente!


O ensaio "Sobre contos de fadas" gira em torno de três perguntas: 1. O que são contos de fadas? 2. Qual a sua origem? 3. E quais os valores e as funções deles? A princípio, o autor desmistifica muito do que se diz a respeito, e percorremos juntos dele um caminho lógico e brilhante para a compreensão de que contos de fadas não são histórias sobre fadas. Na verdade, há uma confusão sobre esse termo devido ao erro de tradução da palavra faierie (Faërie), que significa Reino Encantado, não fadas. Então contos de fadas não seriam histórias de duendes e criaturas minúsculas entre arbustos, mas uma história que se passa no Reino Encantado, onde é possível a existência desses seres (fadas e elfos). As histórias que relatam sonhos e coisas afins também divergem muito da Fantasia propriamente dita, pois esta é uma arte racional, não irracional, eis por que as histórias de Lewis Caroll não são contos de fadas, as fábulas de animais também não o são. Todas essas histórias sobre seres diminutos, sonhos e animais são encantadas e ficcionais, mas, para ser conto de fadas, é preciso que toda a magia seja real naquele contexto.


Tolkien também explica por que essas histórias não deveriam ser especialmente associados às crianças. É certo que ter o coração de uma criança é necessário para entrar no Reino Encantado, mas isso significa ter humildade e inocência. Não significa ausência de crítica, mas possuir aquele espírito infantil que, como disse Chesterton, é inocente e ama a justiça, ao passo que a maioria de nós é malvada e naturalmente prefere a misericórdia. O ponto não é que adultos são malvadões e crianças devem viver numa eterna síndrome de Peter Pan, mas sim que crianças devem crescer e os contos de fadas podem ensinar-lhes uma ótima lição: "que, à juventude imatura, indolente e egoísta, o perigo, o pesar e a sombra da morte podem conferir dignidade e às vezes até sabedoria." Isso é importante para o crescimento, mas os maiores valores que o Reino Encantado pode trazer são coisas de que os adultos precisam ainda mais que as crianças: Fantasia, Recuperação, Escape e Consolo.
"Numa toca no chão vivia um hobbit..." O Hobbit, J.R.R. Tolkien

O livro nos mostra que a Fantasia é a atividade humana natural. Que enquanto há humanidade e, consequentemente, Razão, melhor será a fantasia produzida. E se chegarmos ao ponto da nossa busca pela Verdade definhar, a fantasia pereceria com ela. Além disso, ela é uma forma superior de arte, a mais próxima da forma pura, e por isso (quando alcançada) a mais potente. Acima de tudo, a Fantasia é um direito nosso, e isso remete também à sua origem (que não pode ser traçada precisamente), pois ela existe como reflexo do reflexo de Deus no homem. Se somos feitos à imagem e semelhança de um Criador, nós subcriamos. Por isso a Fantasia segue o padrão evangellium de: criação, queda e redenção (eis a origem dos finais felizes). Assim, os contos de fadas têm uma função bem parecida com a do Evangelho: suscitam escape da Morte e o consolo do Final Feliz (uma alegria que não é escapista nem fugitiva).

A conclusão a que Tolkien chega é belíssima e vocês precisarão ler para sentir a mesma emoção, senão perde a graça do livro, mas posso dizer que tem muito mais dessa ligação entre a Fantasia e o Evangelho. Temos aqui um livro com todas as chaves para desvendarmos o mistério dos contos de fadas, mas que deixa uma lacuna que só nós mesmos, com o uso da nossa cabecinha, podemos preencher. É o que ocorre com o conto que sucede ao ensaio: se entendermos bem este, o porquê daquele conto estar ali fará todo o sentido. Inclusive o Folha é considerado a única narrativa escrita por Tolkien que contém uma alegoria à sua própria vida. Sem contar a correlação entre os nomes Árvore e Folha, que, quando nos tocamos dela, vem aquele sentimento de "aaaahhhhh" (vocês entendem, né? haha). Por fim, deixo esta carta de Tolkien para um homem que descreveu o mito e o conto de fadas como "mentiras":

"Meu caro,
Embora alheado, 
o Homem não é perdido nem mudado.
Sem graça sim, porém não sem seu trono, 
tem restos do poder de que foi dono:
Subcriador, o que a luz desata
e de um só Branco cores mil refrata
que se combinam, variações viventes
e formas que se movem entre as mentes.
Se deste mundo as frestas ocupamos
com Elfos e Duendes, se criamos
Deuses, seus lares, treva e luz do dia, 
dragões e plantamos - nossa é a regalia
(boa ou má). Não morre esse direito:
eu faço pela lei na qual sou feito."

Que a fantasia não morra, porque a existência humana está atrelada a ela e, por consequência, a nossa redenção, enquanto seres na Terra e enquanto seres do Céu.

O clássico conto de fadas Branca de Neve (Schneewittchen), dos irmãos Grimm,




Você pode encontrar esta obra aqui, assim como na livraria Travessa e na Estante Virtual (corram, porque está esgotando em tudo que é canto).

Resenha: Anna Kariênina, de Liev Tolstói

"Toda as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira." Esse é um dos começos mais famosos da história da literatura, e é assim que dá início um dos maiores e mais apreciados romances de todos os tempos: Anna Kariênina, do russo Liev Tolstói. Ouso dizer que este livro é até melhor que outra obra-prima do autor, Guerra e paz, não sei se pelas personagens serem mais atrativas ou mesmo as tramas me prenderem mais. De toda forma, é certeza que qualquer amante de boa literatura se apaixonará por este livro.


Anna Kariênina se passa na Rússia do século XIX e é basicamente um romance sobre a sociedade russa da época, os estilos de vida de seus cidadãos, na cidade e no campo, e trata de assuntos como família, fé, desejos, hipocrisia, fidelidade... Eu não contarei a história passo a passo, por motivos óbvios, mas deixarei uma pequena síntese aqui, para ficar mais claro o que escreverei depois: o livro gira em torno de dois centros principais, o do personagem Liévin e o de Anna Kariênina, mas ambos estão relacionados e constantemente se encontram e misturam-se. Liévin é um proprietário de terras apaixonado por Kitty, irmã de Dolly, que é esposa do irmão de Anna. O livro leva o nome desta pois retrata muito o caso extraconjugal (sem meias-palavras, o adultério) entre ela e Vrónski, mas Liévin é evidentemente mais significativo, não só para o livro, mas também fora dele, considerado um dos personagens mais importantes da história da literatura.

A partir disso, focarei primeiramente no centro de Anna, para falar de algo que, para mim, protagoniza todo o drama dela: o salário do pecado. Antes de ler a obra, imaginei Anna Kariênina como uma personagem desprezível, tal como Emma Bovary (Madame Bovary, Gustave Flaubert). Engano meu. Anna era uma amor de pessoa, encantava todos que a conheciam, pois tinha um bom coração e falava de maneira natural, inteligente e despretensiosa; não era desprezível, tornou-se. Ela casou nova, com um funcionário público muito importante e bem mais velho, Aleksiei Aleksándrovich, e com ele teve um filho, Serioja. Aleksiei tinha um jeito muito arrogante de falar, o que irritava a esposa. Esta nunca foi um mulher apaixonada pelo marido, mas ao se apaixonar por outro homem, os defeitos antes toleráveis do esposo tornaram-se motivo de repugnância para Anna, a ponto de desprezá-lo.

Seu amante Vrónski a conquistou com um gesto de caridade em um acidente de trem que eles presenciaram juntos (apesar de tê-lo feito apenas para impressioná-la). Imaginem um ser que defendia o "deixar-se levar pelos desejos sem pudor", com um falso amor pela verdade e orgulho pela própria falta de moralidade, este era Vrónski. Mesmo querido por - quase - todos, mesmo apaixonante até certo ponto, mesmo responsável, a sua falta de escrúpulos não permite que o leitor sensato o suporte. Mas Kariênina apaixonou-se perdidamente, e foi recíproco. De início, ela relutou, tinha que pensar no casamento, no filho, na sociedade, o que nunca foi objeto de reflexão por parte de Vrónski. Para ele, "aprisionar-se" a essas coisas seria viver uma mentira (eis por que listei o falso amor pela verdade no rol de seus defeitos).

Quando fazemos algo errado, muitas vezes tentamos manipular a nossa consciência para nos sentirmos melhores. Assim também Anna criou mecanismos de defesa contra o marido e a própria consciência, tudo para não se sentir culpada pela situação. Com o tempo, tornou-se cada vez mais infeliz. Por pressão do marido, da sociedade, do amante? Pela falta do filho? Ainda que ela amasse de verdade o filho, deixá-lo foi uma escolha, ela não podia ter os dois. E no fundo ela sabia disso. Não, o que a deixava infeliz era a voz da consciência. E não compreender isso foi a sua perdição.

Seu imediatismo também a fez passar por situações humilhantes na sociedade. Claro que havia muita hipocrisia nesta, mas a insensatez de Anna não ajudou nem um pouco. Até Vrónski era um pouco mais sensato que ela sobre a real situação deles na sociedade. Mesmo assim, o quadro deles melhorou aos poucos, recebiam visitas de amigos/parentes queridos, tudo se encaminhava para o que Anna queria. Mas a felicidade não veio com isso. Pelo contrário, ela tornou-se cada vez mais egoísta, sentia compaixão por si mesma. Tudo estava se encaixando, mas os delírios de ciúme surgiram apesar disso, ela chegou à quase loucura, tudo por conta da consciência pesada. Afinal, não havia outra explicação para suas atitudes, ela já nem sabia mais o que queria.

Diante de situação, o seu esposo Aleksiei revelou-se alguém muito piedoso perante o sofrimento alheio. Por mais dor que sentisse, mesmo tentando esconder, ele ainda se compadecia por Anna. Sua evolução como homem e cristão é evidente. Dolly teve uma forte influência sobre ele ao falar de perdão, o que se contrapôs à influência negativa de uma certa amiga. Não sei se ficou claro para todos os leitores, mas para mim a Lídia era mesquinha e dar ouvidos demais a ela era um erro. De todo modo, de maneira geral, a conduta de Aleksiei foi admirável. Muitos o condenam por não abrir mão do filho, o que causou muito sofrimento a Anna, mas era direito dele, enquanto vítima da traição, ficar com a criança. Foi uma escolha acertada. Se Serioja tivesse ido com a mãe, sofreria mais, pois enfrentaria todos aqueles desvarios e acabaria como sua irmã, preterido.

Chegou ao ponto em que Anna tornou-se incapaz de amar, até mesmo os fortes sentimentos que nutria por Vrónski não passavam de paixão desregrada, que a cegava em relação a tudo que deveria ocupar o centro da sua vida, como a sua filha (já que o filho havia perdido). Ela revelou um lado novo: acreditava conquistar a todos com a sua boa aparência. Ela era linda, todos os homens a desejavam e todas as mulheres deveriam ter ciúme dela, por isso Vrónski deveria ser grato, embora não estivesse agindo conforme a sorte grande que levou. Estava delirando.

Keira Knightley interpreta Anna Kariênina no filme homônimo de Joe Wright, em 2012.

Diferente do que falam, Anna Kariênina não é uma mulher forte. Ela se deixa levar pelas vontades, cria malabarismos para enganar a própria consciência e não tem controle emocional. É uma mulher fraca, com certeza, pois fazer somente o que ela quer não é sinal de força, pelo contrário. Deixar-se levar pelos desejos passionais é negativo, apesar da insistência dos leitores de Tolstói em afirmar o contrário. Se alguém como Anna (ou Emma Bovary, ou Marcela) é símbolo feminista, fazemos bem em querer distância disso. Essa falsa satisfação de fazer exatamente o que tem vontade, sem pensar nos demais ou nas consequências, pode até mascarar a intensa tristeza por trás disso, mas não engana quem tem visão de vida eterna.

Para bons entendedores, o salário do pecado é a morte, não é? Mas calma, isso não é spoiler, basta um pouco de conhecimento bíblico aplicado ao universo literário que vocês compreenderão melhor. Anna se perdeu nos seus erros, até que chegou a um caminho sem volta que só restou para ela dizer: "Deus, perdoe-me tudo!" Não conhecemos o que se passou pelo coração de Anna, nem mesmo a sinceridade do seu arrependimento, mas uma coisa certa é que sua historia diz muito sobre os frutos da queda. Este foi o salário do pecado de Kariênina: a sua ruína enquanto pessoa.

Agora vamos conversar sobre um dos mocinhos mais incríveis da literatura: Liévin. Se por um lado temos a decadência de Anna, pelo outro temos a transcendência de Liévin. Ele não era um herói perfeito, nem na aparência nem na personalidade, os conflitos interiores que ele vive ao longo do livro faz com que não só o tomemos como exemplo, mas nos enxerguemos nele. Liévin é gente como a gente. E todo aquele que já parou para refletir sobre o sentido da vida se identificará com ele.

As suas opiniões únicas o destacavam em qualquer discussão, inclusive seus diálogos eram de dar inveja, pois citava Platão e Dickens com tamanha naturalidade que a gente pensa: por que na minha vida eu não converso assim? Sem contar a visão crítica e sábia que ele tinha sobre a vida, Evangelho, casamento, o campo. Mesmo nobre, ele tinha consciência social, sem se aproximar dos ideais comunistas. Mesmo sem fé, ele entendia mais de cristianismo que a maioria das personagens hipócritas e torpes do livro. Sua disposição de doar-se aos outros mostra o quão importante o sacrifício é para a felicidade na família. Kitty foi agraciada, e ao longo da história percebemos o quanto ela tomou consciência disso. A única parte do livro que pode causar um certo cansaço são as longas descrições sobre a vida no campo e agricultura, paixões de Liévin, mas ainda é prazeroso, porque é necessário. Esse contraste entre a vida na cidade e no campo foi essencial para entendermos de fato como funcionava a Rússia na época. Se você não gostar dessas partes, tenha paciência e continue a leitura. Valerá a pena no final.

Com Liévin, percorremos o caminho até a profissão de fé, o que só foi possível com uma fé já enraizada, ainda que esquecida, dentro dele. Sua luta espiritual é perturbadora, mas a conclusão a que ele chegou foi causa de um dos finais mais arrepiantes, belos e verdadeiros que já li. Liévin finalmente compreendeu.

Ao fim do livro, sinto a obrigação de discordar de Tolstói naquela frase que inicia a história. As famílias infelizes de Anna Kariênina padecem todas no desespero da culpa e da desconfiança. São todas iguais no sofrimento. Já a família de Liévin é incomparável no seu esplendor. Todos têm anseio de encontrar alegria e satisfação, e os modos de fazê-lo variam. Quando nosso objeto de devoção, de esperança e/ou de amor é alcançado, o impacto em cada um é diferente, proporcionando-nos uma felicidade única. Cada família feliz é feliz à sua maneira. E isso me lembra muito uma frase de C.S. Lewis: "Quão monótona é a semelhança que une todos os grandes tiranos e conquistadores; quão gloriosa é a diferença dos santos!" Ser bom é o que nos faz diferentes uns dos outros, os maus são todos iguais.

Com Anna Kariênina, Tolstói entrou para o meu Top 3 de escritores favoritos. Ainda que sua vida estivesse afundada em ideologias condenáveis, a grandiosidade da sua obra é digna da mais sincera admiração. O paradoxo do comunismo e cristianismo unidos em sua mente ensejou a criação de romances inexplicavelmente coerentes. Não se assustem com os temas pesados de traição, morte e pecado, muito menos com as horríveis personagens que compõem a obra, pois como escreveu Ruy Castro na sua biografia de Nelson Rodrigues: "a ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz. O personagem é vil, para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós. A partir do momento em que Ana Karenina, ou Bovary, trai, muitas senhoras da vida real deixarão de fazê-lo. No ‘Crime e Castigo’, Raskolnikov mata uma velha e, no mesmo instante, o ódio social que fermenta em nós estará diminuído, aplacado. Ele matou por todos. E, no teatro, que é mais plástico, direto, e de um impacto tão mais puro, esse fenômeno de transferência torna-se mais válido. Para salvar a platéia, é preciso encher o palco de assassinos, de adúlteros, de insanos e, em suma, de uma rajada de monstros. São os nossos monstros, dos quais eventualmente nos libertamos, para depois recriá-los."



Essa minha edição belíssima é da falecida Cosac Naify. Todo o seu estoque foi vendido para a livraria virtual Amazon, mas atualmente este livro está indisponível. É sinal de que está acabando. Não percam essa edição, a tradução é bem prestigiada, então corram aos sebos e fiquem atentos às livrarias.

Resenha: Guia politicamente incorreto da Literatura, de Elizabeth Kantor

Quanto tempo, meus amigos, estava com saudades! Retorno ao blog hoje com uma indicação maravilhosa: o Guia politicamente incorreto da Literatura, da incrível Elizabeth Kantor. Essa autora escreve muito bem, sobre coisas muitos importantes e de maneira divertidíssima. Da mesma forma de A Fórmula do Amor, o Guia nos traz as verdades universais presentes na literatura. Este livro, mais especificamente, ensina o que os professores politicamente corretos omitem e/ou distorcem da literatura inglesa e americana. Se você ama literatura e percebeu o quão longe os cursos de Letras (dos EUA, do Brasil e do mundo) estão de ensiná-la, leia Elizabeth Kantor urgentemente: não é um livro para falar mal de certos professores, é uma verdadeira introdução à literatura inglesa e americana.


O livro é dividido em três principais partes: o que eles (professores politicamente corretos) não querem que você aprenda com a literatura inglesa, por que eles não querem que você aprenda sobre ela e como você pode ensiná-la a si mesmo. De início, somos introduzidos ao cânone: de Beowulf a Flannery O'Connor. A maior parte do livro é dedicada à discussão sobre o que podemos aprender (mas não estamos) com os grandes autores e poemas ingleses e americanos. Há autores da antiguidade até o século passado, em uma lista completa e irretocável do que não podemos deixar de ver dessa literatura.

Na literatura inglesa antiga, encontramos um amor ao heroísmo há muito esquecido, ou mesmo condenado, pelos gurus da "teoria literária" (o que, na verdade, é marxismo, feminismo e todos os ismos que mais estragam a literatura do que a explicam). A união entre paganismo e cristianismo na literatura antiga trouxe poemas cheios de heróis que nos alertam sobre nossas próprias falhas, nossa indisposição ao sacrifício e falta de admiração a esses homens elevados, assim como refletem a força civilizadora que é o Cristianismo. Já no medievo, temos uma literatura inserida em uma mentalidade completamente religiosa, a exemplo dos Contos da Cantuária, de Chaucer. A sua obra está voltada para a eternidade de tal maneira que os conceitos de liberdade, autoridade e cavalheirismo presentes nela são válidos até hoje e, ao longo da história, proporcionaram muitos avanços além da literatura.

Uma grande época para literatura inglesa foi o Renascimento, por meio de Spenser, Marlowe e Shakespeare. O humanismo cristão estava vivo na sua arte, ainda que não na sua vida. Aqui, a sociedade já não era oficialmente religiosa, tanto que o homem Marlowe era revoltado contra Deus, a verdade religiosa e a virtude, mas "o artista Marlowe sabia que sem tais conceitos, sua arte não poderia ir muito longe". Já William Shakespeare, o maior escritor da língua inglesa, trouxe verdades universais de forma tão profunda na sua obra, que até hoje encontramos atualidade nela, porque mostra e ensina o que, de fato, a natureza humana é. Por isso qualquer pessoa que lê Shakespeare se identifica, porque há muito de ambição, ciúme, morte, casamento, natureza e condição humanas. São os grandes vícios e virtudes humanas de forma bela e poética. Shakespeare escreveu sobre o que é verdadeiro, por isso os que desprezam a verdade o odeiam. Não é à toa que existem inúmeros artigos acadêmicos tentando desmoralizar, corromper, quando não ignorar, toda a sua obra.

Ophelia (personagem da tragédia Hamlet, de William Shakespeare), por John Everett Millais.

No século XVII, o tema da religião volta a ganhar força, pelos grandes Milton, Bunyan, Donne etc. Em Paraíso Perdido, John Milton (que seria acusado hoje de fundamentalista cristão) reescreve a tentação do homem, e seus sonetos destacam os temas da temperança e obediência. "O ideal heróico de Milton é a obediência paciente". Ele também pregou a liberdade intelectual e de imprensa, o que revela ser esta mais cristã do que anticristã, como juram os professores politicamente corretos. No século seguinte, com o advento do iluminismo, temos a era da razão, que todos consideram extremamente revolucionária, mas na qual temos grandes gênios literários que seriam considerados, hoje, muito mais reacionários do que qualquer coisa. Kantor separa quatro: John Dryden, Alexander Pope, Jonathan Swift e Samuel Johnson. Com a literatura inglesa do Iluminismo, aprendemos que "realismo, senso comum e bom humor são mais importantes para a vida do que vitimismo, pensamento positivo e culpa burguesa" (mas não vão te ensinar isso). Contudo, apesar de revigorante, a literatura do século XVIII é muito limitada no que se refere às texturas literárias da literatura renascentista ou da literatura romântica subsequente.

A literatura romântica do século XIX só se comparou à literatura renascentista, e os nomes ingleses que podemos tirar dela são muitos: William Blake, Wordsworth, Coleridge, Byron, Shelley, Keats, Jane Austen, Dickens e tantos outros. Jane Austen, por exemplo, acho que foi a maior vítima dos delírios do politicamente correto, a ponto de a apontarem como uma autora feminista (olhem só o nível da coisa). Enquanto ela celebra os valores patriarcais, eles acham que ela os condena e este é o centro da sua obra. Assim, ela certamente não é uma autora negligenciada pelos professores modernos, mas sua obra foi distorcida em proporções gigantescas. O pecado individual como causa da miséria humana, o casamento como meta de felicidade, a necessidade dos homens estarem mais no controle e o perigo das "mulheres que falam demais" estão presentes em seus livros não como crítica social, mas como celebração desses valores. Basta lê-la que você percebe, sim, muita ironia e crítica social, não aos valores tradicionais, mas à superficialidade, pretensão, egoísmo masculino, hipocrisia feminina e por aí vai. "Jane Austen não é 'subversiva'. Jane Austen é engraçada." Deste período, outro autor incompreendido (propositalmente mesmo) é Charles Dickens. Seu legado segue o clássico "a mudança começa dentro de casa", mas ainda há quem acredite que ele pregava revolução social. Pelo contrário, de suas obras, tiramos a lição de que até as ações aparentemente boas podem ter consequências catastróficas, até piores do que o que tentavam combater.

Os vanguardistas e estetas do século XX seriam um prato cheio para os amantes da decadência humana - e literária -, se eles não tivessem todos se convertido ao Cristianismo, a exemplo de Oscar Wilde. Assim sendo, temos uma literatura que vai muito além de incomodar e irritar, mas que considera a tradição necessária para a criação da grande arte, como em Evelyn Waugh e T. S. Eliot. E por fim, Kantor seleciona o que de melhor há na literatura americana, embora tão negligenciado pelo professores em troca de baboseiras politicamente corretas das últimas décadas. Poe, Melville, Mark Twain, Dickinson, Whitman, Fitzgerald, Faulkner, Hemingway, O'Connor e outros grandes autores americanos talvez sejam tão esquecidos nos cursos de Letras pelo mal presente no coração humano que eles tanto revelam em suas obras. Elizabeth conclui o cânone inglês e americano da literatura falando sobre a obra de Flannery O'Connor: "Quanto mais distante estivermos de entender o pecado original, verdade primordial da natureza humana, mais violenta deve ser a intervenção da graça - e da literatura - para chamar nossa atenção".

Anne Hathaway interpretando a Jane Austen no filme Amor e Inocência.

Na segunda parte do livro, a autora fala por que esses professores PC não querem que você leia - e aprenda - literatura inglesa e americana. O porquê está no que dizem os alunos manifestantes de Stanford em passeata com Jesse Jackson, em 1967: "Hey, hey, ho, ho, a Cultura Ocidental deve acabar". Se o objetivo é desconstruir conceitos, mudar a sociedade e negar a realidade, somente destruindo a civilização ocidental isso é possível. E a literatura é uma das grandes bases dessa cultura, por isso ou a negligenciam ou a deturpam. E se surgir a questão "mas para que serve mesmo a literatura?", William Faulkner, em seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel de 1950, responde: "Creio que o homem não irá meramente perdurar: ele triunfará. Ele é imortal, não porque entre as criaturas ele tem uma voz inexaurível, mas porque tem uma alma, um espírito capaz de compaixão, sacrifício e resistência. O dever do poeta, do escritor, é escrever sobre essas coisas. É seu privilégio ajudar o homem a resistir erguendo seu coração, recordando a coragem, honra, esperança, orgulho, compaixão, piedade e sacrifício que têm sido a glória de seu passado." Com os grandes clássicos da literatura, encontramos beleza, verdade e bondade, o que é preciso esquecer quando se tem como meta destruir uma civilização construída sobre esses pilares.

Por fim, a terceira parte dá algumas dicas para quem quer aprender literatura inglesa e americana, já que ninguém há de ensinar. Estes conselhos são dados pelos próprios grandes autores (bons escritores são sempre bons leitores): leitura atenta ou análise estrutural, assim, nenhum aspecto das obras serão ignorados, já que nenhum é insignificante; e a regra de Reed, que consiste em questionar sobre cada parte das obras que lemos. Também temos alguns passos a seguir para a análise literária de uma obra: 1) uso do dicionário para entender o significado e origem de cada palavra contida, em suma, o domínio do vocabulário e da gramatica; 2) entender um pouco de métrica e rima poética, além dos gêneros literários. Mas, no fim, a melhor forma de se aproximar das obras literárias é decorando os textos, assistindo às peças e conversando sobre os romances. Não há escapatória: para entender uma obra, é necessário entrar nela. Para entender um artista, precisamos ser um pouco artistas também. Decore, atue, recite, crie clubes de leitura, discuta os livros, pense sobre os personagens como se fossem reais. Isso não é bobagem, era exatamente o que Jane Austen fazia.

Essa obra é uma daquelas que o nosso espírito anseia há muito tempo para encontrar e, quando a hora chega, a leitura não é só prazerosa, mas imprescindível para continuarmos a viver. As análises de Elizabeth Kantor sobre a literatura são mais que incríveis, porque ela está atenta a cada detalhe que, muitas vezes, deixamos passar. Ainda que você seja politicamente correto, ainda que tenha birra com a série de "guias politicamente incorretos", não deixe de ler. As grandes verdades universais da literatura estão resumidas nele e, mesmo que as ignoremos, só a quantidade de valiosas dicas de leitura já vale mais que a maioria dos best-sellers que circulam no mercado editorial brasileiro. Que nos voltemos para o poder transformador da literatura de trazer beleza e virtude a esta vida passageira e cheia de superficialidades, pois as "grandes obras de literatura nos ensinam a amar o que é nobre e a desprezar o que é ordinário; elas nos civilizam."



Você pode encontrar essa obra aqui, bem como nas livrarias Saraiva, Amazon, Submarino, Americanas e Cultura.

Dica de filme: La La Land - Cantando Estações

O cinema, assim como a literatura, tem o poder de nos transportar para outros mundos. Sua capacidade de transcender a alma por meio da beleza nos abre os olhos para os nossos próprios sonhos, para todas as possibilidades de vida que só a arte nos proporciona. Os musicais vão além disso, pois inserem música e dança numa cena em que aparentemente não cabia nada disso, o que eleva a sétima arte a outro patamar: a magia de várias artes unidas para nos causar sensações únicas.

Todas as críticas positivas a La La Land - Cantando Estações fazem jus a seu poder sobre nós. Damien Chazelle cumpriu o papel de homenagear os grandes musicais do cinema, numa encantadora declaração de amor ao jazz e ao cinema. Posso dizer que é um filme hipnotizante, que nos leva para dentro dele de fato. Não somos só espectadores diante de La La Land, somos os personagens também, apaixonados e sonhadores.


O filme nos conta a história de Mia (Emma Stone), uma atriz no início de carreira, e Sebastian (Ryan Gosling), um pianista que deseja abrir uma casa de jazz para salvar o gênero musical. Sempre se esbarrando por aí, eles acabam se apaixonando e acompanhamos o romance através das mudanças de estação do ano. São dois personagens normais, com sonhos igual a todo mundo, o que é a graça do filme: somos como eles, podemos tanto quanto eles.


Apesar de não me surpreender tanto com a atuação da Emma e do Ryan, amei a química do casal, combinam muito desde "Amor a toda prova". Também acho incrível como o filme retrata os protagonistas como artistas "normais" e isso diz algo muito importante: não é preciso ter nenhum talento grandioso, tudo é possível mesmo com as nossas limitações.


O filme tem um jogo de cores que transmite pura beleza, a iluminação é única, tornando tudo mágico demais. As canções, então, não ficam para trás: Another Day of Sun, A Lovely Night e City of Stars são apaixonantes. As cores, a luz, a beleza, a melodia, tudo é encantador em La La Land. Eu não sou a melhor crítica de cinema do mundo (nem tenho pretensão de ser), mas posso afirmar que, para os apaixonados por Singin' in the rain (Cantando na chuva) como eu, o filme é uma bela homenagem aos musicais clássicos. Quem está cansado de tanto mais-do-mesmo, esta é uma experiência única. Fica o pedido: assistam a La La Land, deixem-se levar pela magia do cinema e sonhem, sonhem sempre.



Resenha: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley

A literatura distópica é a queridinha dos blogueiros e booktubers, sem sombra de dúvidas, e comigo não é diferente. 1984 (George Orwell), Fahrenheit 451 (Ray Bradbury), Laranja Mecânica (Anthony Burgess) e o recente Sob Efeito do Nada (Andy Nowicki) fizeram parte das minhas leituras e ganharam meu coração, tornando-me uma grande fã de distopias. Diante disso, é de se estranhar que eu nunca tivesse lido Admirável Mundo Novo, do Aldous Huxley, por isso fiz questão de lê-lo logo no início deste ano e posso dizer que tudo o que eu esperava era pouco diante da sua profundidade.

Imagine viver numa sociedade em que não existe família, religião e amor, os valores são completamente invertidos, o sexo e o consumismo são altamente estimulados e todo mundo é feliz, ou melhor, ninguém tem o direito de não ser feliz. É nessa sociedade que vivem os personagens do Admirável Mundo Novo. 

*Imagem retirada do We Heart It.

A história se passa numa Londres futurista, onde as pessoas não mais são frutos da união entre os pais, mas fabricadas em laboratório, para serem exatamente como o governo quer, de tal forma que milhares de pessoas são condicionadas para serem do mesmo jeito. Para isso, existem as Salas de Fecundação, de Predestinação Social e de Decantação, onde são criadas pessoas divididas nas castas Alfa, Beta, Gama, Delta e Ípsilon. Os alfas são feitos para serem os de "melhor qualidade" e os ípsilons são uma espécie de retardados. Apesar disso, todos têm boa aparência, nunca envelhecem e são sempre felizes. Caso surja alguma preocupação, as pessoas sempre podem recorrer ao Soma, uma droga sem efeitos colaterais que acalma a população e a deixa feliz e satisfeita. "Tais são as vantagens de uma educação verdadeiramente científica", é o que dizem os entusiastas deste modelo de sociedade - o que lembra bastante os entusiastas de todas as tiranias que afligiram e afligem o nosso mundo. 

De início, o livro nos apresenta a esse universo novo, depois a história se desenvolve com o surgimento dos personagens: Bernard Marx, um alfa que dizem ter um certo defeito de fábrica, por isso não tem a aparência e personalidade perfeitas dessa casta e não se adapta à nova civilização e, assim, busca autorização para passar as férias numa tal Reserva (Malpaís); Lenina, uma mulher perfeita para os padrões da sociedade e completamente satisfeita com tudo aquilo, que passa a relacionar-se (não amorosamente, claro) com Marx; e John, o Selvagem que eles trazem da Reserva para o mundo novo. As Reservas, tipo as reservas indígenas, são lugares isolados da civilização em que as pessoas ainda preservam os costumes e valores da sociedade pré-revolucionária, ou seja, as pessoas constroem relacionamentos e família, prestam cultos a Deus, lêem os grandes autores antigos, envelhecem, engordam, prezam pelas virtudes humanas... bem, são normais. Mas para o admirável mundo novo são incivilizados, um perigo à estabilidade social.

Quando o Selvagem chega à civilização, vira um espetáculo ao olhos da sociedade, é o foco de olhares admirados e ambiciosos para fazer dele um experimento moderno. Mas ele, apesar de encantado a princípio, enxerga a farsa daquela sociedade e denuncia isso, pregando palavras de liberdade e sensatez, sempre citando Shakespeare. O ponto máximo do livro, a chave para compreender aquela Civilização e todo o mal por trás dela, a meu ver, é o diálogo entre esse Selvagem e o Administrador Mustafá Mond. Nele, compreendemos por que o novo mundo tem pavor a tudo o que é antigo, seja o Cristianismo ou a grande arte. Foi preciso abrir mão de Deus, da arte e do conhecimento para alcançar a felicidade. Contudo, até que ponto a vida sem tempestades, amarguras e solidão é uma vida realmente feliz? Os dois confrontam-se: "- Mas eu gosto dos inconvenientes. - Nós, não. Preferimos fazer as coisas confortavelmente. - Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado." John tem consciência do que importa de verdade na vida, por isso reivindica o próprio direito de ser infeliz.

Ironicamente, essa civilização surgiu com uma promessa de paraíso na Terra, trazida pela figura de Henry Ford (às vezes chamado de Freud, sim, Sigmund Freud), uma espécie de messias, o Transformador do Mundo. Suas ideais se implementaram na sociedade de tal maneira que o fordismo constituía a base da sociedade, sem questionamentos de parte alguma. Uma sociedade estável parece um sonho, não é verdade? Sim, para as mentes tolas, para quem não entendeu nada de como o mundo é, de como as pessoas são e do sentido da vida na Terra. Há quem diga que não há sentido, para esses, talvez um mundo totalitário, sem livre-arbítrio e estupidamente feliz seja a solução, mas não estamos aqui para sermos marionetes de um Estado opressor. Diz o Diretor no livro: "Esse é o segredo da felicidade e da virtude: amarmos o que somos obrigados a fazer." É virtuoso e nos faz feliz fazermos o que devemos fazer, mas é o oposto disso ser condicionado a ser e agir conforme as ambições do governo.

Não sei se por eu ler esse livro paralelamente ao livro A Nova Era e a Revolução Cultural, mas foi inevitável não sentir a imensa crítica à Nova Era, a quaisquer ideologias que tragam soluções para todos os males da sociedade e uma ideia de um mundo novo e perfeito, planejado para adequar a sociedade a um sonho aparentemente utópico, no entanto, completamente distópico. No seu artigo Dois estudos sobre Aldous Huxley, Olavo de Carvalho diz: "Aldous Huxley escreveu este livro para nos advertir da culpa monstruosa que se oculta por trás da inocência dos idealistas."

Assim como 1984, Admirável Mundo Novo sai da esfera de um exercício de futurismo para nos chamar a atenção para o potencial autoritário do própria realidade em que vivemos. Oceania não é um possível futuro da humanidade, mas foi daquela maneira que os regimes comunistas e nazifascistas martirizaram todo um povo no período em que Orwell escreveu o livro. Da mesma forma, Huxley alerta sobre uma sociedade tecnológica e industrial que transforma a racionalidade numa religião e a ciência num Deus, o que é um perigo atual e podemos ver isso claramente na hipersexualização, na produção de bebês in vitro, na doutrinação das crianças, da fuga às drogas para esquecer os problemas, tudo é parte da Nova Ordem Mundial, em que a liberdade de escolha foi suprimida em prol da ordem social perfeita. A lógica deste livro não inova para nos amedrontar, mas segue a própria lógica da História.

Todas as distopias têm algo em comum: uma sociedade manipulada, que não raciocina e só reproduz, sem liberdade e estável. A questão é que governo nenhum pode impedir os tempos difíceis, pois são neles que surgem os grandes homens, estes criam tempos bons e é um ciclo sem fim. A história da humanidade é essa, desde os séculos dos séculos, e tentar apagar isso é anular qualquer chance de surgirem bons homens, com honra e coragem, que proporcionem uma felicidade que existe apesar de todo sofrimento e aflição. Sem isso não há crescimento, não há amadurecimento, nem mesmo há humanidade.

Li o livro nesta edição de bolso da Globo. Você pode encontrá-la aqui.

Resenha: Um Cântico de Natal, de Charles Dickens

Comecei 2017 com um clássico que deveria ser lido no Natal, mas como eu sou a rainha da procrastinação, cá estamos nós. Esta obra já foi citada aqui, quando falei do filme "Barbie em A Canção de Natal", inspirado nela. Podemos ver referências suas também em vários outros desenhos e filmes da cultura popular, então certamente vocês já conhecem o enredo, pelo menos um pouquinho.

"Um Cântico de Natal", do inglês Charles Dickens, narra a história do avarento e impiedoso Ebenezer Scrooge, proprietário de uma casa de contabilidade, pela qual dedica sua vida. Ele é um péssimo empregador, mantendo seus empregados no frio para evitar gastos com aquecedor e sob péssimas condições de trabalho, como o seu escriturário, o pobre Bob Cratchit.

Na véspera de Natal, Scrooge é assombrado pelo fantasma do seu sócio e único amigo, Jacob Marley, que aparece com várias correntes e afirma estar reservado o mesmo destino ao amigo caso não mude de comportamento, pois são as correntes construídas em vida que o aprisionam no tormento do limbo. Para isso, três fantasmas (ou "espíritos natalinos") lhe aparecerão, para levá-lo à reflexão sobre a vida e o espírito de Natal, são eles: o Fantasma dos Natais Passados, o Fantasma do Natal Presente e o Fantasma do Natal Futuro.


O primeiro dos espíritos o leva aos seus natais passados, desde a infância solitária até a separação do antigo amor. Diante da infância sofrida, porém imaginativa, o velho Scrooge demonstra até certa inveja de quem foi, e diante do diálogo com a amada, que amolece o coração até do mais duro dos homens, ele se sentiu quase torturado. O segundo espírito mostra a Scrooge uma realidade que ele desprezava, mas não conhecia: uma ceia de Natal numa família pobre. Mesmo acreditando que a miséria poderia sacrificar pessoas em nome da redução populacional, ele se chocou com o amor compartilhado de uma família em necessidade e com uma criança doente, a do seu escriturário Bob. Também presenciou a ceia da sua família que, mesmo magoada com suas atitudes, ainda brindam a ele. O terceiro e último espírito, não preciso nem falar, é o que amedronta Scrooge ao conduzi-lo por um futuro miserável, sombrio, solitário e certamente seu. Todos esses espíritos constantemente usam das palavras insensíveis que ele sempre repete para limpar a sua consciência e apontar a crueldade delas diante das situações reais. São verdadeiros tapas na nossa cara também, pois somos um pouco de Scrooge quando lemos a história, não só por adentrarmos no personagem, mas porque ele representa a miséria humana da qual fazemos parte.

Antigamente, eu tinha a impressão de que a história tratava de maneira simples demais o ato de adotar uma nova postura, pois o protagonista estava diante de um iminente sofrimento e era óbvio tentar evitar aquilo, mas é um pensamento muito limitado, pois Scrooge começa a perceber a realidade a partir do primeiro momento e mesmo que não percebesse, que apenas a ideia de sofrer o amedrontasse, é assim que as coisas são. São nesses momentos de desespero e paixão que encontramos força para mudar, não só por nós mesmos, mas por todas aquelas pessoas as quais atingimos com a nossa falta de caridade. É no sofrimento que crescemos.

Com este belíssimo clássico da literatura inglesa, percebemos também que todas aquelas críticas ao capitalismo que atribuem a Dickens não são suficientes para a grandeza da sua obra. Todas as críticas sociais são partes do seu trabalho, com certeza, mas não o centro dele. Tais críticas, no máximo, transformariam Scrooge de um pão-duro ranzinza a um rabugento politiqueiro, mas os espíritos não pretendiam isso, queriam ir além de uma realidade política para uma realidade transcendental, que o levaria a uma vida nova de beleza, virtude e amor.

Certamente é um livro perfeito para o tempo de Natal, em que Jesus nasce e, com Ele, a esperança de vida eterna e plena, mas também diz muito sobre o Ano Novo. Que façamos deste ano uma chance de fazer diferente, de crescer e o que preciso for para salvar a nossa alma e a vida e alma do irmão.

Comprei essa edição bilíngue da Landmark na Saraiva, por um preço muito bom, quase de graça, rsrs. E ele ainda continua, corram!

Resenha: A Imagem Descartada - Para compreender a visão medieval do mundo, de C. S. Lewis

O que C. S. Lewis chama de "esnobismo cronológico" é preocupante em relação às discussões, acadêmicas ou não, sobre tempos passados, sobretudo sobre o que chamamos de Idade Média, pois leva a impressões erradas sobre essa época tão subestimada quanto desconhecida. Diante disso, Clive Staples nos leva à realidade medieval de maneira profunda e surpreendente, com esclarecimentos e análises sobre uma mentalidade tão distante e, ao mesmo tempo, tão próxima de nós.

O último livro de Lewis, publicado postumamente, A Imagem Descartada - Para compreender a visão medieval do mundo, é resultado das investigações do autor sobre essas questões. Não à toa, ele foi professor de Literatura Medieval e Renascentista em Cambridge; menos à toa ainda, ele trouxe ao mundo uma obra repleta de costumes medievais - as populares Crônicas de Nárnia. Para desfrutar das suas obras mais conhecidas, é recomendável e maravilhoso adentrar nos seus conhecimentos e influências sobre épocas e tradições anteriores. Antes de tudo, preciso ressaltar que C. S. Lewis é genial, considerado umas das mentes mais brilhantes e incrivelmente lógicas do século XX, pois isso aviso de antemão que sua leitura pode provocar arrepios a cada linha (pelo menos é o que acontece comigo). Agora vamos à obra!


No Capítulo 1, Lewis faz uma análise da situação medieval, partindo do estudo de duas obras: Brut, de Layamon, e Le Pèlerinage de l'Homme, de Deguileville. Ambas revelam uma mitologia enraizada na crença selvagem, que chegou aos medievais por meios dos livros, passando de geração em geração até manter um pouco de várias culturas. Isso releva um "caráter predominante livresco ou clerical da cultura medieval", o que a difere da comunidade selvagem, que absorve cultura pelo comportamento e/ou oralidade, e da nossa sociedade, cujo conhecimento depende mais da observação. A leitura era "o ingrediente mais importante da cultura total", apesar da rara alfabetização da época. Mas não só a tradição greco-romana, por meio dos livros, enraizou-se na Idade Média, a contribuição bárbara também, principalmente no que concerne à lei, aos costumes e à configuração geral da sociedade, bem como o pensamento, sentimento e imaginação pagãos sobreviveram nos únicos e insubstituíveis romances e baladas medievais. No entanto, estas, por estarem ausentes nas maiores obras da literatura medieval, como os hinos, Chaucer e Dante, mostram-nos que se tratam de coisas à margem da mente, justamente por não serem "o centro". Dessa forma, Lewis considera o homem medieval, em seu traço mais típico, não um sonhador ou um peregrino, mas "um organizador, um decodificador, um construtor de sistemas". Exemplos perfeitos disso são a Summa de São Tomás de Aquino e A Divina Comédia de Dante, além da própria síntese medieval, toda a organização de sua teologia, ciência e história, que constroem um modelo essencialmente livresco e sistemático. Esse contexto só foi possível porque os homens medievais acreditavam no que os autores antigos escreveram, com isso, herdaram uma coleção bem heterogênea de livros - judaicos, pagãos, platônicos, aristotélicos, estoicos, cristãos primitivos, patrísticos - e mesmo de gêneros literários. Diante disso, o autor nos leva a refletir sobre essa relutância em simplesmente desacreditar em algo de um livro, pois o ideal é harmonizar as aparentes contradições, da forma como os medievais faziam e, em consequência, aperfeiçoaram um Modelo perante o qual o homem moderno acredita estar livre e, no entanto, está reduzido como diante de uma obra de arte. O intuito de C. S. Lewis é convencer o leitor de que esse Modelo do Universo medieval "é a obra central, à qual a maioria das obras particulares estavam ligadas, à qual faziam referência constante e da qual colhiam grande parte de sua força" e à qual devemos muito mais do que gostaríamos de admitir.

Mr. Tumnus apresenta uma "Balada de Nárnia" para Lucy Pevensie em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa.

No capítulo 2, o autor faz algumas ressalvas quanto a esse Modelo medieval, de modo a concluir que ele é um construto de perguntas respondidas e, por isso, ele importa mais para a literatura e arte que para os especialistas da ciência, filosofia e teologia, na medida em que diz respeito ao universo imaginário dessa realidade. Assim, o Modelo é destruído quando o especialista responde às questões velhas. Até isso, todos os pensadores que, de certa forma, influenciaram na história do pensamento medieval são úteis para a construção desse Modelo, que se daria "a partir do acordo real, ou suposto, entre autores antigos - bons ou maus; filósofos ou poetas; compreendidos ou incompreendidos - que, por qualquer razão, estivessem acessíveis". E embora houvesse níveis de influência mais baixos disso na sociedade medieval, ainda é possível observar seus elementos nas caseiras e desprovidas de arte Lendas do Sul da Inglaterra, mesmo que alguns níveis intelectuais e espirituais estivessem acima do poder completo do Modelo.

Como esse Modelo é quase um consenso do imaginário medieval sobre livros e autores antigos, Lewis apresentou algumas dessas fontes nos capítulos 3 e 4, nos quais há materiais selecionados dos períodos clássico e seminal, principalmente os menos conhecidos e que melhor ilustram o curioso processo pelo qual o Modelo as assimilou. No período clássico (antiguidade pagã): 1) A obra de Cícero foi o protótipo de muitas ascensões aos céus na literatura posterior, em Chaucer, Dante e muito da produção medieval, e o caráter geral de seu texto é característico de muito material que a Idade Média herdou da Antiguidade. 2) Lucano gozava de grande respeito no medievo e cada detalhe de sua obra "cruzará o nosso caminho em um autor ou outro". 3) Estácio e Claudiano e sua senhora "Natura" tornam mais compreensível a estima dos medievais pela Natureza, e isso não os confunde com os estoicos e outros panteístas, pois "eles acreditaram desde o início que a Natureza não era tudo. Ela foi criada. Não era a maior criação de Deus, tampouco sua única obra. Ela tinha seu lugar próprio, abaixo da Lua (...) Havia coisas acima dela e coisas abaixo dela. É precisamente essa limitação e subordinação da Natureza que a deixa livre para seguir uma carreira poética triunfante. Ao abrir mão da pretensão estúpida de ser tudo, ela se torna alguém. Mas, para os medievais, ela é só uma personificação. Um ser figurado nesses termos é evidentemente mais poderoso que uma divindade em que eles realmente acreditassem e que, sendo tudo, não é precisamente nada." 4) Apuleius ilustra o tipo de canal pelo qual fragmentos de Platão chegaram à Idade Média - o que proporcionou, junto com os tradutores latinos dos neoplatônicos, o clima intelectual em que cresceu a nova cultura cristã, a exemplo de Santo Agostinho - e apresenta dois princípios: o Princípio da Tríade, pelo qual os medievais fornecem pontes entre duas coisas, e o Princípio da Plenitude, que traz a ideia de que todo o universo deve ser habitado ou, em outras palavras, aproveitado.

Já o período seminal foi um tempo de transição entre o último estágio do paganismo e o triunfo final da Igreja. Dele, Lewis destaca: 1) Calcídio, com sua consmologia, transmitiu ao Modelo medieval o espetáculo da dança celestial, a qual o homem se eleva ao imitá-la, e a ideia de que a matéria está em constante aperfeiçoamento, o que resultaria principalmente na poesia latina do séc. XII, em harmonia com a herança de Estácio e Claudiano. 2) Macróbio, nas suas ideias de nuances entre os sonhos e de virtudes cardeais, traz ao medievo concepções neoplatônicas em um ambiente eminentemente cristão. 3) Os escritos de PseuDionisio são considerados o principal canal pelo qual a chamada "teologia negativa" entrou na tradição do Ocidente, mas a sua contribuição para o Modelo está na angeologia e nas suas Hierarquias Celestiais - o que acabou por ser aceito pela Igreja. Esse espírito está bem presente no Modelo medieval e, mesmo que descrente o leitor, Lewis acredita que basta exercitar a imaginação para perceber o amplo reajuste envolvido na leitura atenta dos poetas antigos e que "no pensamento moderno, isto é, no pensamento evolucionário, o homem está no topo de uma escada cuja base se perde na escuridão; nesse Modelo, ele está na base de uma escada cujo topo é invisível por causa da luz ofuscante." [Impossível ler isso e não lembrar da Trilogia Cósmica de C. S. Lewis, então penso: refletiria o Modelo até mesmo na sua obra, em pleno século XX?] 4) E, por último, Boécio, sobre o qual Lewis escreveu: "Aprender a apreciá-lo é quase 'naturalizar-se' medieval", pois sua apologia da Fortuna, defesa da Felicidade e doutrina da Providência&Destino se imprimiram na imaginação das posteriores eras, como no Modelo medieval, de maneira inigualável, especialmente no que conhecemos por doutrina do livre-arbítrio.

No capítulo 5, temos uma análise do pensamento científico medieval, que em muito (totalmente) difere do que o senso comum propaga com tanta presunção. Aqui, o foco é a astrologia, absorvida da Antiguidade e aperfeiçoada para a Renascença, ainda que a Idade Média tenha lutado contra o lucro em cima dela, o determinismo e o culto aos planetas, o que muitas vezes ocorre quando se trata desse assunto. Lewis conclui: "A imaginação humana raras vezes teve diante de si um objeto tão sublimemente ordenado quanto o cosmos medieval. Se ele tem uma falha estética, quem sabe isso seja pelo fato de que para nós, que viemos a conhecer o romantismo, ele seja um pouco ordenado demais. Por todos os seus espaços vastos, ele pode no final infligir-nos certa claustrofobia. Será que não há nenhuma incerteza em lugar algum? Nenhum atalho não descoberto? Nenhum crepúsculo? Será que nunca poderemos sair da soleira da porta?" E, em seguida, ele traz alívio a essas questões, levando-nos ao Reino desconhecido das Fadas.

The Faerie Queene de Edmund Spenser (imagem retirada do Pinterest).

Lewis dedicou o capítulo 6 aos Longaevi, ou seres de vidas longevas, mais especificamente aqueles seres fantásticos que tanto permeiam o universo criativo de Nárnia, que podemos chamar de fadas. A importância desses seres para o Modelo é justamente o fato de serem tão presentes nele quanto marginais, eis onde reside seu valor imaginativo: "Eles amenizam a severidade clássica do imenso design. Eles introduzem um quê selvagem e de incerteza bem-vindo em um Universo que está correndo o perigo de ser um pouco autoexplicativo e luminoso demais". As fadas trazem o mistério do desconhecido à tona e livram-nos da claustrofobia apontada por Lewis anteriormente. Com isso, é apresentado um estudo acerca da visão literária sobre essas criaturas, nos autores modernos e medievais, a partir da visão destes sobre aqueles e suas influências e nuances com base no Modelo Medieval. Por não saber exatamente onde as fadas se encaixavam nesse Modelo, nem mesmo quanto e quão conscientemente acreditavam nelas, elas tinham credibilidade suficiente para produzir teorias antagônicas sobre sua natureza, dentre as quais: de que são uma terceira espécie racional, anjos, mortas ou parte de alguma classe especial de mortos ou anjos decaídos. Poderíamos esperar que a ciência se importasse com essas Fadas Superiores; porém, Lewis acredita que elas tenham desaparecido pela redução da superstição. São seres completamente vivos no imaginário medieval (e posterior), mas, onde quer que eles tenham existido, continuam incógnitos.

No capítulo seguinte, inclusive o mais extenso do livro, vários temas relacionados à Terra e seus habitantes são trabalhados, a começar pelo conhecimento geográfico na Idade Média. Apesar de inegavelmente limitado, ele era menos ingênuo e muito mais prático do que a modernidade costuma lhe classificar, em relação à gravidade, à forma da Terra e aos continentes - ao mesmo tempo em que é muito romântico. Sobre a zoologia medieval, o que temos é mais uma pseudozoologia, bem fantasiosa e que envolve criaturas como fênix, pelicanos e unicórnios, mas extremamente importante para poder ler os poetas ou fazer um debate esclarecido sobre eles. Ele também dedicou uma parte deste capítulo à alma humana sob a ótica medieval e, por incrível que pareça, o sentido da razão, ponto máximo da alma humana, estreitou-se bem mais com o passar dos anos em relação à Idade Média. Também as relações "corpo e alma" e "corpo e emoção (no sentido d'esta refletindo naquele)" esteve em debate nesse período, bem como o estudo do "passado humano", que, pela humildade e dedicação, daria uma aula de processo histórico aos historicistas radicais. Lewis diz: "Historicamente, bem como cosmologicamente, o homem medieval se encontrava ao pé da escada; ao olhar para cima, ele sentia prazer. Olhava para trás como para a frente, com todo o espetáculo majestoso que isso reservava, e sua humildade era recompensada com os prazeres da admiração." Além disso e por fim, ele analisa a pedagogia medieval, nas conhecidas e insuperáveis sete artes liberais. São elas: Gramática, Dialética, Retórica (Trivium), Música, Aritmética, Geometria e Astronomia (Quadrivium).

Lewis chega ao fim do livro falando sobre a influência do Modelo, na imaginação perceptiva dos medievais, na Retórica, no prazer pelo Universo (o que difere do "amor pela natureza" no sentido de Wordsworth), na reprodução de autores passados e, sobretudo, na humildade da arte, mesmo que os artistas sejam orgulhosos de sua proficiência. Essa humildade difere em muito o homem medieval dos posteriores, principalmente hoje, em que "só o que fazemos é pensar que pensamos. Depois de ter tragado tudo, ele (o sujeito) devora a si mesmo. E 'para onde nós vamos' surge como uma questão mergulhada nas trevas." No Epílogo, encontramos um quase Elogio do Modelo Medieval e algumas diferenças entre ele e nosso próprio, com explicações que mostram a importância de compreender o pensamento/Modelo de um período muito mais que demonizá-lo ou endeusá-lo, o que acontece atualmente em relação à Idade Média e à modernidade, respectivamente.

Os detalhes sobre todos os autores citados no livro e sua importância na formação do Modelo de Universo medieval ficam para Lewis explicar, com a eloquência e a genialidade que só ele tem, mas o importante para o post é apenas a visão geral. E que fique claro que Lewis traz uma análise do pensamento medieval à luz da literatura, então, mesmo que abordados temas diversos, é tudo sobre literatura.

Por fim, eu deixo um apelo: que olhemos para a Idade Média tal como os medievais olhavam para a história; para eles, "havia amigos, ancestrais, benfeitores em todas as épocas. Cada um tinha o seu lugar, por mais modesto, em uma grande sucessão; não era preciso ser nem arrogante nem solidário".

Clive Staples Lewis.




Você pode encontrar esta obra aqui: http://www.erealizacoes.com.br/produto/a-imagem-descartada---para-compreender-a-visao-medieval-do-mundo (inclusive está em promoção).

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